Ainda que para muitos, o corpo seja a casa de um punhado de órgãos, pensamentos, sensações, sentimentos e algumas funcionalidades, muitas investigações no campo poético das relações psicofísicas vem sendo discutidas a séculos. A dança enquanto uma manifestação milenar nos indica alguns caminhos dentro e fora dos estudos sobre o universo corpo, mente e sociedade.
Por aqui a busca ainda é dar muitas voltas em torno de pequenos passos, de acordo com as formas e maneiras de olhar sobre um ponto de interrogação no espaço, e na falta dele. Corpo e sociedade dialogam enquanto infância.
O teatro e a dança neste atual contexto amazônico molham os pés em meio a uma forte resistência cultural mergulhada na luz da escuridão. E este fragmento luminoso revela aos remos o cotidiano de um povo que, em diálogo com muitos outros, desencontra o lugar de suas palavras em seu próprio lugar.
Hoje, enquanto silêncio, o tempo cria impulsos e me faz questionar: em que tempos queremos viver...
De tempos em tempos esta pergunta se refaz no imaginário de quem sonha por novos tempos, e o corpo que levanta e acorda sem despertar segue o fluxo do seu habitat ao passar despercebido sob o tempo que lhe cabe.
A falta de memória é a renovação das relações industrializadadas. Para uma cultura que transmitiu as suas relações fortemente fundamentadas pela oralidade, o impacto inaudível de um turismo predador alcança dimensões incalculáveis , enquanto as tradições e saberes locais se transmutam em resistência.
Resistimos, existimos e movimentamos um corpo na sua imensidão. Assim já nos orienta as danças circulares sagradas, sob a roda que gira em torno do vazio para no calor das mãos aquecermos o corpo e a partir do outro gerarmos mais calor, ou seja, a luz.
Por isso insisto nesta luz, onde podemos enxergar em cada olhar a sociedade que queremos viver em nossos tempos, em nossa memória e em nossos corações.
“O Corpo é uma multidão excitada, uma espécie de caixa de fundo falso que nunca mais acaba de revelar o que tem dentro. E tem dentro toda a realidade . Querendo isso dizer que cada indivíduo existente é tão grande como a imensidão inteira, e pode-se ver na imensidão inteira.”
(Antonin Antaud)